Levides após o incêndio de Vouzela

Entre os dias 2 e 7 de julho, um incêndio de grandes dimensões percorreu parte do concelho de Vouzela e territórios vizinhos. Há uns dias, deslocámo-nos à propriedade de Levides para perceber o que tinha acontecido e começar a pensar nos próximos passos. A avaliação agora realizada é apenas preliminar, mas permite-nos já tirar algumas conclusões e identificar prioridades de intervenção.

Área do incêndio de Vouzela (Fonte Fogos.pt)

Nesta propriedade, a gestão nos últimos anos, incluiu a desmatação, para abertura de caminhos e plantação, de cerca de 0,6 ha, e a plantação de cerca de 4 000 árvores e arbustos.

Aspeto geral da propriedade em junho deste ano

A primeira constatação foi simples: o incêndio entrou na propriedade e afetou praticamente toda a sua área. No entanto, como acontece frequentemente nestas situações, o fogo não se comportou da mesma forma em todo o terreno. Encontrámos zonas onde ainda permanecia alguma matéria orgânica no solo e onde parte da vegetação arbórea parece ter escapado aos efeitos mais severos das chamas. Noutras áreas o consumo da vegetação e da matéria orgânica foi quase total.

Área ardida com menor severidade

Área ardida com maior severidade

As áreas de plantação localizadas a sudoeste da propriedade foram as mais afetadas. Nesta fase, a mortalidade observada é muito elevada e, durante a visita, não foram encontradas plantas vivas ao longo do percurso de avaliação. Apesar disso, será prudente esperar pela próxima primavera antes de fazer um balanço definitivo. Muitas espécies podem ainda revelar capacidade de recuperação que, neste momento, não é possível avaliar com rigor.

Em várias linhas de água encontrámos vegetação relativamente bem conservada, incluindo carvalhos de dimensão considerável pouco afetados pelo incêndio. Estas zonas funcionam frequentemente como refúgios para espécies de fauna e flora durante acontecimentos extremos e deverão assumir um papel central na recuperação ecológica futura de Levides.

Lugares pouco afetados da galeria ripícola

Também a regeneração natural dá alguns sinais encorajadores. Na parte norte da propriedade, onde a severidade do incêndio foi menor, observam-se carvalhos, castanheiros e outras folhosas com copas dessecadas mas sem danos severos nos troncos. É expectável que uma grande parte destes indivíduos recupere através da rebentação da copa. Nas zonas mais afetadas, a situação é mais incerta: alguns exemplares poderão morrer, enquanto outros deverão rebentar pela toiça, uma estratégia comum de sobrevivência em várias espécies autóctones. Só a monitorização dos próximos meses permitirá perceber a verdadeira dimensão desta recuperação.

Exemplares de carvalho pouco afetados pelo incêndio

O incêndio deixa também vários desafios imediatos. A estabilização do solo, a manutenção dos acessos, a utilização de material lenhoso queimado em estruturas de engenharia natural e a identificação das áreas prioritárias de intervenção são algumas das ações que consideramos importantes nas próximas semanas.

Os incêndios florestais são acontecimentos marcantes, mas a história de um território não termina quando o fogo passa. Em Levides começa agora uma nova fase: a de observar, compreender e ajudar os processos de recuperação natural, intervindo apenas onde isso for realmente necessário. Nos próximos meses continuaremos a acompanhar a evolução da propriedade e a partilhar os resultados desse trabalho.

Zona em que a severidade do incêndio na vegetação foi alta

Toiça de carvalho bastante afetada

Toiça de carvalho pouco afetada

Zona em que a severidade do incêndio na vegetação foi alta (acumulação de combustíveis)

Zona em que a severidade do incêndio na vegetação foi baixa

Medronheiros plantados pouco afetados pelo incêndio

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