17 de agosto de 2016

O caminho da suavidade

Já antes usei esta tradução de “judo” para falar das opções de gestão da Montis.
E já antes fiz posts assinados por mim quando sei que o que vou escrever, embora como presidente da Montis, não corresponde a matérias inteiramente consensuais dentro da associação.
Não são apenas as ideias de máxima eficiência com o mínimo esforço e de bem comum que nos ligam filosoficamente ao Judo, é também a ideia de que resistir a um adversário mais forte terá sempre como efeito a nossa derrota, ao contrário do que acontece quando esperamos pelo ataque, o antecipamos e nos desviamos para lhe causar um desequilíbrio que nos permita usar a superioridade da sua força a nosso favor.
A posição da Montis sobre a gestão do fogo, um adversário imensamente superior a nós, é talvez o mais eloquente exemplo desse caminho da suavidade que adoptámos.
Nestes dias em que se bateu o record de área contínua ardida acima do Mondego, bem no coração da área de actuação actual da Montis, 50 hectares sob nossa gestão arderam, mais de 100 hectares ficaram a metros de arder.
Outras áreas de outros projectos a que demos uma ajuda também arderam.
Como esperado, o maior valor de uma das áreas que arderam, a magnífica galeria ripícola ao longo de dois quilómetros do Paiva, não se pode dizer que tenha ficado intacta mas não ardeu grandemente, ao contrário de tudo o que a rodeia. A próxima Primavera virá, com certeza, demonstrar que terá sido muito pouco afectada pelo fogo.
Ainda não fizemos a primeira avaliação completa dos efeitos do fogo. Na verdade, ainda só será possível avaliar a severidade do fogo, isto é, a profundidade de afectação da parte aérea das plantas, o que está relacionado com a temperatura do fogo e tempo de residência da chama em cada sítio: ao contrário da ideia comum, o fogo não é uma rasoira que deixa tudo igualmente queimado, o fogo é um elemento dinâmico que progride com muitas variações de temperatura e velocidade, deixando atrás de sim um mosaico de efeitos que variam na profundidade em que é afectado cada metro quadrado de terreno.
Tirar partido dessa diversidade será pois o ponto de partida para o que faremos nos próximos anos.
Mesmo antes da verdadeira avaliação dos efeitos do fogo, que só na próxima Primavera pode ser feita com algum rigor, há coisas que podemos antecipar.
A maior das urgências é caracterizar o risco de expansão de acácias e hakeas e desenhar, o mais rapidamente possível, um modelo de controlo desta ameaça que seja realista, tirando partido de durante algum tempo termos um livre acesso a qualquer parte dos terrenos, enquanto o mato não volta a atingir a dimensão que tinha. O controlo das invasoras que beneficiam com o fogo é, para nós, a prioridade das prioridades.
Também sabemos que temos cinco a sete anos de baixíssima probabilidade de fogo, a que se seguem outros quatro/ cinco anos com probabilidade média de novo fogo e depois voltamos à elevada probabilidade de fogo que caracteriza o modelo de gestão do território que existe.
Sabemos ainda que antes do fogo tínhamos numa das propriedades o retrato quase exacto do que podemos esperar num horizonte de dez a quinze anos: este fogo é a repetição do que aconteceu em 2005 e portanto os valores presentes antes do fogo são o resultado da evolução em onze anos, nomeadamente o magnífico medronhal de encosta que agora ardeu. Teremos isso em atenção no modelo de gestão.
Nas propriedades que não arderam desta vez, e que portanto mantêm um risco elevadíssimo de fogo, vamos manter o programado, estando muito adiantada a possibilidade de, no baldio de Carvalhais, sermos nós a queimar no Outono/ Primavera parte do que hoje não ardeu. Com o provável apoio da ACHLI (esperamos um parecer do ICNF para as intervenções programadas), baixaremos o risco de fogo nalgumas áreas, de forma controlada, com efeitos totalmente diferentes do fogo selvagem que por ali parou. Usaremos fogos de temperaturas mais baixas e com objectivos de gestão bem definidos: aumentar a probabilidade de criarmos matas ripícolas ao longo das linhas de água da propriedade, como primeiro passo para aumentar a biodiversidade, a resiliência ao fogo, a diversidade estrutural e amenidade do uso.
Vamos manter as acções programadas de capacitação em engenharia natural que financiaremos com o resultados da campanha de crowdfunding, provavelmente estendendo-as aos projectos de terceiros a quem temos dado algum apoio.
E estamos a pensar num conjunto de passeios, ao longo do ano, pelas áreas ardidas, com especialistas em ecologia do fogo, para respondermos à mais que justa perplexidade que nos trouxeram: “Só não entendo porque é que tem de arder?”. Procuraremos respostas a esta perplexidade com quem saiba ler um fogo, avaliar as suas razões e os seus efeitos e aumentar a nossa capacidade de entender este elemento natural, tão natural como a chuva, o vento ou a terra mas que teimamos em ver como um elemento estranho que deveríamos eliminar.
Passo a passo, acção a acção, voltamos ao judo para aprender: iremos aproveitar, tanto quanto conseguirmos, o desequilíbrio que o fogo criou, não para o derrotarmos, mas para o gerir de forma socialmente mais útil, criadora de riqueza e diversidade.
Sabemos bem que também aqui a diferença entre veneno e remédio está na dose.

henrique pereira dos santos

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