"Erros meus, má fortuna" e não há queima no dia 24

Eu já sabia que usar o fogo controlado de forma sistemática era uma corrida de obstáculos, não era um passeio.
Mas desta vez subestimei os obstáculos e tomei decisões erradas que, combinadas com algum azar (a sorte é uma coisa que dá muito trabalho, talvez não tenhamos feito tudo o que podíamos para ter sorte), nos impedem de queimar nesta Quarta-feira. Não sabemos por quanto tempo a queima fica suspensa.
Queimar giestal, de acordo com quem sabe, é do mais difícil que se pode fazer em fogo controlado porque a densa cobertura que um giestal proporciona impede o desenvolvimento da vegetação junto ao solo e o fogo não pode progredir sem ser sob a forma de um fogo de copas no giestal.
Isso implica que a queima seja feita em condições limite, a intensidade do fogo seja relativamente elevada (mesmo que longe da intensidade de um fogo de Verão) e a possibilidade de haver projecções exista, o que obriga a uma cuidadosa preparação e previsão de onde os saltos do fogo podem provocar problemas.
O equilíbrio entre a necessidade de fazer progredir o fogo e a necessidade de o manter dentro de limites aceitáveis aconselham a que não se queime com demasiada disponibilidade do combustível, o que nos impede de programar a queima para o princípio da próxima semana, em que estarão condições muito aceitáveis para a queima de muitas outras coisas. Queremos fazer a queima uns dias depois de ter chovido, antes que o combustível seque excessivamente.
Por tudo isto a próxima Quarta-feira representava uma janela de oportunidade ideal e relativamente rara, de maneira que, mesmo não estando terminadas as faixas de contenção, decidimos trabalhar no fio da navalha, mas sem margem para grandes imprevistos, procurando garantir que o que faltava para as faixas estarem feitas seria executado nesta Segunda-feira e amanhã Terça-feira.
Hoje ao fim da tarde surgiram dois problemas: a) a informação de que haveria objecções por parte da Câmara Municipal, que não tem de se pronunciar mas a quem pedimos parecer por cortesia e porque queremos envolver quem podermos na gestão desta área que estava sem gestão há dez anos, o que teria, muito provavelmente, efeitos na disponibilidade dos bombeiros para acompanharem a queima; b) a informação da falta de disponibilidade dos trabalhadores com que estávamos a contar para terminar a faixa de contenção a tempo do fogo.
Um erro de comunicação interno da Montis, da minha responsabilidade, inviabilizou o plano B que poderíamos executar para garantir que a faixa de contenção estava totalmente operacional, o que a somar a todas as dificuldades e incertezas, nos levou a cancelar a queima nesta Quarta-feira.
Para a Montis é um problema real e complicado, não sabemos quando voltaremos a ter estas condições para queimar, mas há opções de gestão que não se podem usar sem ter em atenção o risco associado ao seu uso, e o fogo é, com certeza, uma dessas opções de gestão, em especial enquanto esta técnica for socialmente temida e condenada de forma mais ou menos generalizada, o que tentamos combater executando fogos tecnicamente irrepreensíveis, com quem mais saiba do assunto e com a maior abertura, transparência e visibilidade possível.
As minhas desculpas pessoais, e também as da Montis, a todos os que, como eu, esperavam ansiosamente por ver este fogo ocorrer em condições tão favoráveis de meteorologia e numa época do ano diferente dos outros dois fogos, mas as minhas desculpas especialmente à equipa técnica da Montis que fez tudo o que podia para assegurar que seria possível queimar nesta Quarta-Feira.
Paciência.
É tempo de avaliar bem todo o processo, ver onde se poderia ter feito melhor, aprender com os erros, e esperar uma nova janela de oportunidade para queimar estes vinte hectares.
henrique pereira dos santos

Comentários

  1. Em vez de chamar "combustível" à madeira, chamei-na "carbono" pois, em vez de associarmos este precioso material a uma fogueira onde tudo se transforma em cinza, podíamos associar à compostagem. A estilhagem transforma esse material em composto durante o inverno, criando as condições perfeitas e naturais para um ponto mais evoluído no processo de desenvolvimento da floresta. Enquanto deitar fogo, volta tudo à estaca zero. Vejam este exemplo onde transformou em composto as remas e cepos de eucalipto, passa-se em Portugal e é divulgado na Áustria: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2043041182452762&set=pcb.2394291150588026&type=3&theater&ifg=1

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  2. As vantagens em fazer fogo controlado apenas se encontram quando se aplica a um contexto de pasto para renovação das espécies deste sistema. Mas ainda só se não houver rebanhos suficientes, pois a passagem massiva e pontual de rebanhos nos prados substituí o fogo controlado com todos os benefícios de fazer evoluir esse sistema.

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  3. Nunca conseguirão fazer um bosque sem solo de qualidade e esse solo se faz com compostagem, ou naturalmente através da decomposição das folhas e ramos ao longo do tempo, ou muito rapidamente com o processo chamado compostagem através de podas e estilhagem do arbustos e sub-arbustos.

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  4. Apresento outra explicação de como se hidrata a paisagem de forma permanente e sem a necessidade de intervenção ao longo do tempo. https://www.facebook.com/photo.php?fbid=754552831301610&set=pb.100002407005280.-2207520000.1542364553.&type=3&theater

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  5. Têm aqui um exemplo magnífico como se inverte a desertificação, desta vez na Austrália. https://www.youtube.com/watch?v=-4OBcRHX1Bc

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  6. Caro João Jorge, temos todo o gosto em que venha visitar o projecto e veja, com os seus olhos, que não tem razão no que diz, em especial nos efeitos do fogo controlado, largamente documentados na literatura científica, mas que neste caso tem a possibilidade de verificar por si mesmo.

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    1. Desde já agradeço o convite. Eu compreendo que haja literatura que documente o fogo controlado e até que o promova. A questão é que existem outras formas de acções que podemos fazer, que não são mais do que imitar o que a natureza realiza todos os dias para evoluir como sistema, produzir carbono e introduzir através de uma multitude de elementos, como são as bactérias e micélios que os transformam adequadamente para uma nova geração de espécies, tanto vegetais como outras. Isso também está documentado. Um forte abraço

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