Entre os Carvalhais do vale do rio Bestança

Eram 9 da manhã do passado sábado, e em Covelas já se ouvia um pica-pau verde que aqui mora a dar os bons dias. Fomos ao vale do rio Bestança apreciar 4 horas de bons momentos na natureza, no fundo da serra de Montemuro, com um grupo de 23 participantes entre os quais 4 voluntários do projecto LIFE VOLUNTEER ESCAPES (LIFE17 ESC/PT/003).

Passeio pelo carvalhal

A caminhada começou em Covelas, aldeia localizada na encosta, e estendeu-se num percurso circular onde percorremos parte das duas margens do rio. Deste ponto descemos para caminhar ao longo da base da encosta. Na proximidade de Covelas há ainda algum terreno agrícola gerido pelas pessoas que aí vivem, mas rapidamente essa gestão deixou de se sentir e entramos num carvalhal ao longo do qual fizemos a primeira parte da caminhada. A luz do sol, filtrada pelas copas das árvores, torna-se difusa no interior do bosque. A camada de folhas secas que estão ora no chão, ora nas árvores, contrasta com o verde das novas rebentações. 

Carvalhal

Esta paisagem teve tempos uma gestão activa, com actividades de agricultura e pastorícia. A armação das encostas em socalcos, as casas em pedra e madeira abandonadas, e as laranjeiras e pequenos arbustos ornamentais que espreitam entre o carvalhal denunciam essa ocupação anterior. Com o abandono do interior do vale, a natureza reocupou o espaço. A paisagem é aqui dominada por carvalhais maduros, com um sub-coberto bastante diverso (loureiros, pilriteiros, sabugueiros, gilbardeiras e muitas outras espécies companheiras dos carvalhais).
Chegando ao Prado, onde desagua o Ribeiro de Barrondes, descansamos sentados nas pedras e lanchamos. Na zona do Prado há vários lameiros, muito próximos do rio Bestança, que são pastoreados por vacas. A rega é feita por gravidade, através de levadas que recolhem a água no ribeiro de Barrondes. Aqui há a oportunidade de olhar para as encostas inclinadas e perceber a distribuição da vegetação e as suas variações com a disponibilidade de água e de solo: junto ao rio os freixos, choupos e amieiros; no sentido ascendente segue-se a zona de carvalhal, na meia encosta, depois o pinhal de pinheiro bravo, e por fim os giestais e as rochas nos topos das colinas.

Ocupação da encosta pela vegetação, com as áreas de giestal pontuadas com carvalho na zona superior
Conversando com as pessoas que ali vivem é-nos dito que o fogo vem com intervalos de a 4 anos, das zonas mais altas até meio da encosta, sendo que já não passa há muitos anos para as áreas mais baixas do vale. Nestas áreas mais perturbadas é curioso ver aquilo que lembra a situação que a Montis gere em Carvalhais: um giestal alto, sendo a principal diferença que aqui já há uma boa quantidade de carvalhos a espreitar entre o giestal, e que com o tempo e fogos sucessivos, sobretudo com intervalos tão curtos, irão possivelmente acabar por dominar o coberto vegetal.
Continuamos a caminhada subindo até Valverde, e descendo depois até ao rio. O caminho tornou-se mais estreito, acompanhando várias levadas, na orla entre lameiros e carvalhais maduros, até à ponte romana de Covelas. Após uma paragem na ponte para apreciar a beleza do rio voltamos a subir em direcção a Covelas, para terminar o passeio. Este era o caminho que ainda há poucos anos a padeira local fazia entre Valverde e Covelas para distribuir o pão. 

Descida para a ponte de Covelas, ao longo de uma das levadas

Um arroz de salpicão estava à nossa espera no final, e após o esforço da caminhada foi recompensador descansar e apreciar aquela refeição na aldeia de Covelas. 
Um obrigado a todo o grupo pela presença e pela contribuição feita para o crowdfunding "Como coisa que nos é cedida".

Jóni Vieira


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