Todas acácias, mas todas diferententes
(Aproveitando a Semana das Espécies Invasoras 2026)
O género Acacia não ocorre naturalmente no nosso país embora tenha uma distribuição nativa muito vasta que incluí vários continentes. As espécies de acácias que têm comportamento invasor no nosso país são geralmente provenientes da Austrália, mas também de outras zonas do globo com clima mediterrâneo (o comportamento invasor deve-se à espécie ser importada de um local onde as condições climáticas são semelhantes e à não existência de predadores/parasitas/herbívoros capazes de as consumir e enfraquecer).
As espécie de acácia mais comuns no nosso país são a mimosa (Acacia dealbata), a austrália (Acacia melanoxilon), a acácia de espigas (Acacia longifolia) e a acácia negra (Acacia mearnsii) Mas temos também outras, menos vulgares, como por exemplo a Acacia saligna ou o espinheiro-karro (Acacia karro), esta última é proveniente da África do Sul ao invés das anteriores que proveem da Austrália.
Apesar de pertencerem todas ao mesmo género estas espécies têm diferenças morfológicas que as distinguem como espécies e que, em certos casos, condicionam as possibilidades de metodologias de gestão da invasão.
As acácias da MONTIS
A MONTIS gere invasões de mimosa na Aguada-de-Baixo, Baldio de Carvalhais, Baldio da Granja, Costa Bacelo, Pampilhosa da Serra, Tortosendo e Vieiro sendo esta a espécie mais problemática nas nossas propriedades. Gere invasões de austrália na Quita das Lamas no Picôto e gere invasões de acácia negra e acácia de espigas na Malveira.
O que mais distingue a acácia-de-espigas (presente na Malveira)
As duas espécies de acácias presentes na Malveira apresentam diferenças morfológicas relevantes, o que implica a adoção de estratégias de controlo distintas. Entre essas diferenças, destaca‑se a menor presença de gomos dormentes na acácia‑de‑espigas (Acacia longifolia) quando comparada com outras espécies, como a acácia‑negra. Os gomos dormentes são estruturas constituídas por tecidos meristemáticos que contêm os primórdios de novos ramos e que permitem à planta regenerar‑se após perturbações, como o corte, a seca ou o fogo. Nesta espécie, a reduzida capacidade de rebentação vegetativa após o corte, associada à menor abundância destes gomos, torna possível utilizar o corte rente ao solo como metodologia eficaz de controlo, desde que executado corretamente. De facto, esta espécie tende a rebentar pouco a partir da touça ou das raízes, o que limita a regeneração após a intervenção. Por outro lado, o seu sucesso invasor está fortemente ligado à produção abundante de sementes e à persistência do banco de sementes no solo, pelo que a remoção dos indivíduos adultos contribui para reduzir a reposição desse banco ao longo do tempo. Em contraste, outras acácias invasoras apresentam elevada capacidade de regeneração vegetativa após o corte, com produção vigorosa de rebentos a partir de raízes e touças, tornando esta técnica menos eficaz ou mesmo contraproducente, e exigindo abordagens de controlo complementares.
Outra característica muito relevante da acacia de espigas em Portugal é que tem um controlo biológico. O controlo biológico de uma espécie invasora consiste na utilização de inimigos naturais provenientes da região de origem da espécie invasora (como predadores ou parasitas) para reduzir a sua população de forma equilibrada e sustentável. No caso específico da acácia de espigas foi introduzida uma vespa formadora de galhas Trichilogaster acaciaelongifoliae, um inseto originário da Austrália, região nativa da planta. Este agente de controlo foi autorizado após mais de uma década de estudos de especificidade e análise de risco e foi libertado pela primeira vez em Portugal em 2015, em vários locais do litoral. A introdução e monitorização do processo foram conduzidas por equipas científicas que incluem investigadores do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra e do Instituto Politécnico de Coimbra. Esta vespa deposita os seus ovos nos botões florais e vegetativos da acácia‑de‑espigas, induzindo a formação de galhas que impedem o desenvolvimento de flores e, consequentemente, a produção de sementes. Deste modo, reduz significativamente a capacidade de reprodução e dispersão da espécie invasora, podendo diminuir drasticamente a produção de sementes. Posteriormente à introdução foram conduzidos estudos de monitorização que demonstraram que este agente apresenta elevada especificidade e não provoca impactes significativos em espécies nativas, sendo considerado um exemplo pioneiro de controlo biológico de plantas invasoras na Europa.
A MONTIS, na Malveira, utiliza como metodologia de gestão de acácia de espigas (na fase do controlo), o corte desta espécie rente ao solo. Esta metolologia de controlo surge aliada às de descasque, de arranque manual da regeneração natural desta espécie e ao controlo biológico (o "Trichi"). Por vezes o tempo do transporte das acácias cortadas é superior ao descasque e frequentemente é preferido ou executado em combinação com descasque por motivos de ensombramento do solo.
Referências bibliográficas
Invasoras.pt (2021). Acacia longifolia – características, impactos e controlo.
López‑Núñez, F. et al. (2025). Three-trophic level food webs support the safety of a biocontrol agent 3 years after release. Restoration Ecology
Guilherme Varejão, 2026
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