16 de julho de 2016

Grão a grão


Eu, como a larga maioria dos sócios da Montis, nunca fui a um dia de voluntariado dos que organizamos.
Também não vou aos terrenos sob gestão da Montis tantas vezes como muitos outros sócios, para não falar do João Miguel que tem a obrigação profissional de o fazer.
A Montis não espera das pessoas mais do que podem dar, por isso entende como perfeitamente normal que o envolvimento dos seus sócios seja o que cada um entender, em função das suas opções de vida.
Hoje vamos, pelo primeiro ano, organizar qualquer coisa cujo o objectivo é levar informação aos sócios sobre o que se está a passar nos carvalhais que temos, quer aos que lá estarão fisicamente, quer aos que depois leiam a "reportagem" do dia, quer aos que falem depois com quem esteve. É a primeira vez que o fazemos desta forma, provavelmente repetiremos todos os anos o  jantar no carvalhal, precedido ou não de uma visita mais demorada, sucedido ou não de uma noite de dormida no local.
Queremos mesmo que o que fazemos seja avaliado pelos sócios, para corrigir o que for para corrigir, para celebrar o que houver a celebrar.
E ontem, porque havia uma série de questões a tratar, vim mais cedo para Vouzela, aproveitando o fim do dia para ir aos 100 hectares do baldio de Carvalhais, cuja gestão nos está entregue.
É uma situação bem mais difícil que a dos carvalhais que são nossos, um giestal imenso, uma carga de combustível brutal, uma acessibilidade mais difícil, etc..
O mais natural é que toda a área arda um destes anos e o nosso objectivo central não é impedir que isso aconteça, é simplesmente contribuir para uma melhor evolução da biodiversidade e dos sistemas naturais quando isso acontecer.
Por isso, por todas estas circunstâncias, procuramos desenhar um tipo de gestão diferente da dos carvalhais de Vermilhas, exigindo mais meios e intervenções mais estratégicas: fizemos uma candidatura ao PDR 2020, fizémos a campanha de crowdfunding, estamos a conversar com a ACHLI (e, por essa via, com o ICNF, que infelizmente demora tempos infindos a pronunciar-se), apoiamo-nos na eólica da Arada, enfim, procuramos meios para darmos passos seguros num contexto em que é fácil ter a tentação de fazer qualquer coisa e essa qualquer coisa ser inconsequente dada a dimensão dos problemas de gestão que ali estão.
Ontem um dos objectivos da visita era ver como estava a evoluir uma pequena área, para além de avaliarmos melhor o que está a aparecer na regeneração natural (quase tudo giesta, pouquíssimos carvalhos, aqui e ali alguns pinheiros, ou seja, um desconsolo para quem procura pequenas âncoras de intervenção a que associar esforços pontuais de gestão, persistentemente orientados para objectivos sustentáveis).
Quando preparámos a primeira oficina de engenharia natural, infelizmente cancelada devido às condições meteorológicas adversas, tivemos o apoio da equipa de sapadores florestais da freguesia de Carvalhais para nos preparar a área onde iria decorrer a parte prática da oficina.
Porque ali estavam, e porque havia a disponibilidade de algumas árvores para plantação, os sapadores, para além de terem feito o que pedimos (e que agradecemos) abriram uma pequena clareira na proximidade, onde fizeram umas plantações.
É um modelo de intervenção que nunca seria promovido pela Montis, nas circunstâncias existentes, porque o risco de voltar tudo atrás é muito grande e a possibilidade de ser trabalho deitado à rua é real.
Uma vez feito, optámos por acompanhar essa clareira com especial cuidado e ver se conseguimos levar a carta a Garcia, permitindo que boa parte das árvores plantadas não morra cedo ou não seja abafada pelo mato envolvente.
O ano tem sido favorável, com chuvas até muito tarde (ainda na semana passada choveu) e o que ontem vimos dá-nos alguma esperança: vai ser preciso dar uma baldadas de água ao longo do Verão para que as árvores plantadas superem a desvantagem de não terem ainda longos sistemas radiculares como acontece com o mato cortado envolvente, vai ser preciso esperar pela próxima Primavera para responder à provável pujança da recuperação do mato envolvente, enfim, vai ser preciso algum trabalho de gestão de pormenor, em espécie de filigrana de intervenção para que a coisa vingue e tenha resultados.
Não é, por isso, uma situação que possa ser repetida ou usada extensamente, mas uma vez investido o capital de trabalho dos sapadores, o que nos resta é não o desperdiçar e esperar que aquela seja uma das primeiras âncoras de gestão em que consigamos ter resultados, preparando o seu desenvolvimento para o pós-fogo que um dia teremos de gerir.
Esperamos que o pequeno núcleo de carvalhos assim criado ainda venha a ser uma fonte de bolota para a recuperação do resto dos cem hectares.
Não esperamos grandes intervenções nem grandes resultados, só esperamos que passo a passo, grão a grão, seja possível demonstrar que outra gestão do território é possível, criando mais riqueza, mais emprego e mais biodiversidade.
Ontem, com a visita que fizemos, fiquei com a ideia de que não é absurdo pensar que, não sendo fácil, é possível.
henrique pereira dos santos

Sem comentários:

Enviar um comentário