24 de fevereiro de 2017

O fogo que queremos

O Luís Lopes, que acompanhou a queima, fará um post sobre o fogo controlado que fizemos ontem no baldio de Carvalhais.
Mas enquanto isso não acontece, talvez valha a pena dizer qualquer coisa sobre esta opção de gestão, que não é habitualmente usada por organizações de conservação em Portugal.
O que está em causa, nesta acção de ontem, é a criação de boas condições de gestão, quer na área queimada, quer nas áreas envolventes.
Queimámos cerca de 20 hectares dos 100 que temos sob nossa gestão neste baldio, do lado Leste da propriedade, como forma de reduzir o combustível do lado de que habitualmente entram os fogos na propriedade, criando mosaicos e facilitando o combate futuro.
Com isso, não só ajudamos a gerir melhor os outros 80 hectares (que, em qualquer caso, arderão, mais tarde ou mais cedo), como temos agora condições para investir mais consistemente na recuperação da vegetação e do solo das áreas mais baixas, articulando esta acção com as intervenções de engenharia natural e outras.
Claro que teríamos preferido fazer primeiro o fogo e depois a primeira oficina de engenharia natural, mas não foi possível e vamos agora avaliar em que medida o trabalho feito ainda mantém alguma funcionalidade, acabando por fazer uma maior retenção de cinzas e nutrientes, embora se espere uma baixa erosão, com as condições meteorológicas que hoje podemos prever (dois dias de chuva fraca na semana que vem).
As razões para usarmos esta técnica de gestão são razões de gestão muito bem definidas, mas são também razões pedagógicas.
Estamos a combinar em que fim de semana de Maio o António Salgueiro guiará mais um passeio do fogo, neste caso por uma área de fogo controlado, permitindo que todos possam discutir as vantagens e desvantagens do uso desta ferramenta e, sobretudo, em que circunstâncias ela pode ser favorável aos objectivos definidos e em que circunstâncias será preferível usar outros métodos de gestão.
Mas logo no dia da queima se tirou partido deste potencial pedagógico, com o António a fazer uma exposição inicial mais longa e pormenorizada para as cerca de vinte pessoas presentes, para além de explicações constantes ao longo do dia, sobre as opções de queima e condução do fogo.
Correctamente usado, o fogo é bastante preciso, só queima o que queremos queimar e, sobretudo, queima a temperaturas muito mais baixas que as seriam atingidas nas condições meteorológicas extremas em que ocorrem habitualmente os fogos de Verão, sendo a afectação das plantas muito baixa, queimando apenas partes aéreas e permitindo uma rápida recuperação.
Na verdade, ao queimar desta forma, quando queremos, como queremos, onde queremos, substituímos um modelo de gestão de fogos períodicos em condições extremas que se traduz numa lenta recuperação dos sistemas naturais, sem objectivos definidos, numa peça de outro modelo de gestão, com objectivos bem definidos e em que a não gestão é uma opção válida quando os sistemas naturais atingem um grau de maturidade interessante, e não a falência do uso do território.
Daqui a alguns anos, provavelmente, teremos um território mais rico, mais diverso, com maior potencial de biodiversidade e economia, com uma gestão sustentável e orientada para a produção de biodiversidade.
Usamos o fogo agora, para que não seja o fogo a usar-nos um dia destes.
henrique pereira dos santos

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